A Polícia Federal (PF) cancelou o porte de arma do subinspetor da Guarda Civil Metropolitana (GCM)Reginaldo Alves Feitosa (imagem em destaque) após ele matar com um tiro nas costas o entregador Douglas Renato Scheeffer Zwarg, de 39 anos, durante abordagem nas proximidades do Parque Ibirapuera, em Moema, bairro nobre da zona sul paulistana.
O cancelamento foi informado pela prefeitura à Polícia Civil em 18 de maio, pouco mais de um mês após o homicídio, ocorrido em 10 de abril. A manifestação foi apresentada depois que o Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) questionou o comando da GCM sobre o porte de arma, a capacitação de Feitosa para portar e usar armamento e os protocolos empregados pela corporação nas abordagens.
No documento, a GCM informou que o porte havia sido emitido pela PF em 8 de dezembro de 2023 e permanecia ativo na data da morte. Feitosa também havia realizado, em 3 de fevereiro deste ano, o Curso de Capacitação de Tiro Operacional como parte do estágio exigido para a manutenção da autorização.
“Consta atualmente que o porte de arma de fogo para o servidor foi cancelado pela PF, em virtude da ocorrência”, afirma trecho do ofício da GCM. O documento, porém, chama Douglas de “ciclista Anderson”, apesar de identificar corretamente a vítima no restante da resposta.
A Prefeitura de São Paulo também encaminhou ao DHPP o procedimento operacional que regulamenta as abordagens da Guarda.
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do Metrópoles SP
Investigadores também solicitaram eventuais imagens captadas por câmeras do Programa Smart Sampa, as quais seriam inexistentes de acordo com a prefeitura.
Ofícios pora obter imagens
Ao Metrópoles, no fim da tarde dessa terça-feira (21/7), a Secretaria Municipal de Segurança Urbana afirmou que o subinspetor segue afastado e responde a procedimento administrativo.
A pasta acrescentou ter recebido apenas um ofício da Polícia Civil sobre as imagens do Smart Sampa e disse que respondeu ao documento em 14 de abril. A versão, porém, não coincide com o que consta no inquérito.
Os autos registram dois expedientes enviados pelo DHPP ao programa (o Ofício nº 71/2026, de 14 de abril, e o Ofício nº 104/2026, de 22 de abril). No segundo, a Polícia Civil reiterou o pedido, indicou a localização de duas câmeras (veja galeria acima), informou as coordenadas dos equipamentos e solicitou eventuais gravações feitas entre 18h e 23h do dia da morte.
O processo também reúne o e-mail de encaminhamento do segundo ofício ao endereço oficial do Smart Sampa. Apesar disso, não há, nos registros judiciais consultados, resposta da prefeitura a essa nova solicitação.
A reportagem também procurou a Secretaria da Segurança Pública (SSP), responsável pela Polícia Civil, mas não obteve retorno. O espaço segue aberto para manifestações.
Tiro durante abordagem
Douglas foi morto na noite de 10 de abril. Ele trabalhava em um restaurante e fazia entregas para complementar a renda da família.
Feitosa afirmou à Polícia Civil que o disparo ocorreu acidentalmente enquanto ele desembarcava da viatura. Segundo o subinspetor, Douglas teria perdido o equilíbrio com a bicicleta elétrica e batido na porta do veículo.
O guarda que dirigia a viatura relatou ter ouvido o estampido durante a aproximação, com o carro da GCM ainda em movimento. Depois do tiro, a equipe pediu apoio relatando inicialmente apenas um acidente de trânsito.
Guardas que chegaram ao local disseram ter recebido a informação de que o entregador havia caído e sofrido um mal súbito. O ferimento provocado pelo disparo só foi percebido quando socorristas retiraram as roupas da vítima.
Douglas não estava armado. Feitosa foi preso em flagrante por homicídio culposo (não intencional), pagou fiança de R$ 2 mil e passou a responder ao caso em liberdade. Ele também foi afastado pela prefeitura paulistana na ocasião.
Absolvido em apuração disciplinar recente
O processo administrativo mais recente tornado público pela prefeitura após o homicídio foi aberto em 2 de junho, quase dois meses após a morte de Douglas.
O procedimento terminou com a absolvição de Feitosa por insuficiência de provas. A acusação e os demais documentos, no entanto, permanecem sob sigilo.
Por isso, não é possível afirmar se essa apuração disciplinar tratava da morte do entregador. O caso de 10 de abril é investigado em inquérito policial, e o subinspetor responde por homicídio culposo na Justiça comum.
Prefeitura nega existência de câmeras
A Secretaria Municipal de Segurança Urbana informou ao Metrópoles que não existem câmeras do Smart Sampa nas proximidades do local onde o entregador foi morto.
“Por esse motivo, não foi possível disponibilizar imagens relacionadas ao fato”, afirmou.
Segundo a pasta, a negativa foi encaminhada prontamente à Polícia Civil assim que a GCM recebeu o pedido. O processo obtido pela reportagem mostra que, em 15 de abril, um guarda de 3ª classe respondeu ao DHPP que “não há câmeras no local” e, por isso, não seria possível localizar as imagens.
A prefeitura também afirmou que o Smart Sampa não possui câmeras embarcadas nas viaturas da Guarda usadas na ocorrência envolvendo a morte de Douglas.
Polícia fotografou dois equipamentos
Apesar da negativa inicial, investigadores localizaram e fotografaram dois equipamentos de monitoramento no entorno do local onde Douglas foi baleado (veja galeria acima).
Um deles foi apontado na Praça Maria Helena de Barros Saad. O outro, na Avenida Pedro Álvares Cabral, próximo às placas de acesso à Rua Sena Madureira e à Avenida Rubem Berta.
Em 22 de abril, o DHPP enviou novo ofício ao Smart Sampa. Além dos endereços, informou a latitude e a longitude dos dois pontos e pediu a análise de eventuais gravações feitas entre 18h e 23h do dia do crime. O documento ressalta que as câmeras poderiam ter captado a ocorrência.
Nos registros judiciais consultados pela reportagem não consta uma nova resposta da Prefeitura — mesmo que negativa — após o envio das fotos, dos endereços e das coordenadas. Também não aparecem imagens desses equipamentos anexadas ao inquérito.
Smart Sampa tem 50 mil câmeras
Segundo números oficiais da Prefeitura de São Paulo, o Smart Sampa reúne 50 mil câmeras conectadas e em operação na capital. Desse total, 20 mil são do próprio programa e 30 mil pertencem a redes privadas integradas. A distribuição divulgada pela gestão municipal é de 14 mil câmeras na zona oeste, 12 mil na região central, 9 mil na zona leste, 5 mil na zona norte e 10 mil na zona sul — região onde ocorreu a morte de Douglas e na qual concentram-se 20% do total anunciado pela Prefeitura.
A gestão municipal afirma que os equipamentos estão espalhados por pontos estratégicos da cidade e priorizam locais de grande circulação e áreas com maior demanda por segurança. O sistema emprega recursos como reconhecimento facial, leitura automática de placas e alertas gerados por inteligência artificial.
Investigação continua
Em 13 de julho, a Polícia Civil pediu mais prazo para concluir o inquérito. O delegado responsável afirmou que ainda havia “diligências imprescindíveis” para o esclarecimento do caso.
Entre os documentos juntados nessa atualização está a resposta da GCM sobre o porte de arma e a capacitação de Feitosa.
A dinâmica do disparo, contudo, continua baseada principalmente nos depoimentos dos agentes envolvidos e nas demais provas reunidas pela Polícia Civil. Em pontos relevantes, as versões apresentadas não coincidem.
Fonte: Matrópoles


















