Excomungado pelo Vaticano após a confirmação do vínculo da Capela Santo Atanásio, em Ceilândia (DF), com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), o padre Françoá Costa (foto em destaque) afirmou que continuará exercendo normalmente o ministério religioso e classificou como “inválida” a decisão da Igreja Católica.
Em entrevista ao Metrópoles, o sacerdote afirmou que não pretende recorrer da decisão do papa Leão XIV e sustentou que nem ele nem a comunidade religiosa se consideram em situação de cisma, termo utilizado para definir a ruptura da comunhão com a autoridade do papa e da hierarquia da Igreja.
A FSSPX, fundada em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, defende a preservação das tradições da Igreja Católica, como a celebração da missa em latim e a manutenção dos ensinamentos anteriores ao Concílio Vaticano II.
O Vaticano, por sua vez, considera que a fraternidade rejeita parte das reformas aprovadas pelo concílio e desafia a autoridade da Igreja, o que tem provocado sucessivos embates entre as duas partes e culminou na recente declaração de cisma e excomunhão.
A excomunhão foi anunciada após as sagrações episcopais realizadas em 1º de julho sem autorização do papa. Segundo o Vaticano, a consagração de bispos sem aprovação papal configura uma violação do Código de Direito Canônico.
A Arquidiocese de Brasília também publicou uma nota informando que a Capela Santo Atanásio e o padre Françoá estão em situação de cisma e que os sacramentos administrados no local, como confissões e casamentos, são inválidos.
Para o sacerdote, no entanto, a própria legislação da Igreja prevê exceções que afastariam a aplicação da pena. Apesar disso, Françoá afirmou reconhecer a autoridade do papa Leão XIV e disse rezar diariamente por ele durante as missas.
“Para nós, essas excomunhões e essas declarações de cisma são totalmente inválidas. Em consciência, não houve nem cisma nem excomunhão. A nossa vontade não é de nos separar nem do Papa e nem da Igreja Católica”, afirmou.
Segundo o padre, a decisão do Vaticano não altera a rotina da comunidade. Ele afirmou que as missas, confissões, casamentos, batizados e demais celebrações continuarão sendo realizados normalmente na capela.
Resgate de tradições cristãs
Durante a entrevista, o sacerdote criticou mudanças promovidas pela Igreja Católica após o Concílio Vaticano II (1962-1965), considerado um marco de renovação da instituição.
Segundo ele, a Fraternidade São Pio X rejeita práticas como o ecumenismo, a reforma litúrgica que substituiu a missa em latim pela celebração atualmente adotada pela Igreja e outras mudanças que classifica como expressão do “modernismo”.
“O que nós fazemos é uma operação de resgate da tradição da Igreja Católica. Não aceitamos essas ideias modernas que, a nosso ver, destruíram a fé católica. O modernismo é a síntese de todas as heresias”, disse.
François também criticou decisões recentes de integrantes da Igreja, como a bênção a casais do mesmo sexo e a comunhão para pessoas divorciadas em nova união, afirmando que essas práticas seriam incompatíveis com a doutrina católica tradicional.
“Nós estamos vendo, por exemplo, cardeais da Igreja Católica abençoando pessoas do mesmo sexo. Isso não é doutrina católica. Estamos vendo bispos dando comunhões da Sagrada Comunhão a pessoas que vivem em segunda união, portanto, em adultério. Vemos várias dancinhas na missa e invenções. Não aceitamos nada disso aqui”, frisa.
Celebrações na igreja
Questionado sobre a repercussão da excomunhão entre os frequentadores da Capela Santo Atanásio, o padre afirmou que a comunidade recebeu a notícia com tranquilidade.
Segundo ele, a frequência às celebrações permaneceu normal e, no dia seguinte à divulgação da nota da Arquidiocese, a capela registrou público superior ao habitual.
François também rebateu a orientação da Arquidiocese de Brasília de que confissões e casamentos realizados na capela não têm validade.
Segundo ele, embora não possuam a chamada jurisdição ordinária concedida pelo bispo diocesano, os sacerdotes da Fraternidade atuariam com base na chamada “jurisdição extraordinária” prevista pelo Direito Canônico, o que, na interpretação do grupo, garante a validade dos sacramentos.
O sacerdote também afirmou que pretende manter todas as atividades da comunidade e disse acreditar que o crescimento da Fraternidade São Pio X demonstra a força do movimento tradicionalista.
“A Capela Santo Atanásio é um oásis tradicional na fé católica de sempre, para defender aquilo que os Santos Apóstolos nos deixaram e que veio até nós através da sucessão dos santos Bispos, dos santos Papas e dos mártires. Continuaremos nossa missão. Se Deus está conosco, quem será contra nós?”, apontou.
Entenda o caso
- A Arquidiocese de Brasília declarou a excomunhão do padre Françoá Costa e de toda a comunidade ligada à Capela Santo Atanásio;
- O padre Françoá é adepto da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), grupo que se encontra em crise com o Vaticano, desde 2025;
- Ele afirmou que a comunidade recebeu a nota da arquidiocese (leia abaixo) “com muita paz” e que a comunidade não é cismática, nem excomungada;
- Françoá defende ainda que, devido ao princípio da “jurisdição de suplência”, todos os sacramentos realizados na capela da Ceilândia são válidos e lícitos;
- A decisão da Arquidiocese de Brasília é um desdobramento direto de um decreto emitido pelo Dicastério para a Doutrina da Fé, no Vaticano, publicado em 2 de julho deste ano;
- O documento papal aplicou a excomunhão latae sententiae (que ocorre de forma automática pelo próprio ato cometido) contra a FSSPX.
Fonte: Matrópoles














